"Instrumento cilíndrico, em cujo fundo há fragmentos móveis de vidro colorido, os quais, refetidos sobre um jogo de espelhos, produzem uma combinação infinita de imagens. Sucessão de impressões e sensações através de contos, fotos, ilustrações, músicas, poesias... Esse é o Caleidoscópio."
Do terraço da minha casa posso ver a torre escarlate de Lun-Piao ser devorada pelas chamas. Assim como ela, eu também serei em breve devorado pelo esquecimento graças ao triste benefício que me prestará a esfera de ópio que engoli há pouco. O céu vermelho do anoitecer multiplica o fogo ao infinito, cortado por uma coluna de fumaça negra e reta como meus pensamentos.
Em volta da imensa torre e avançando para cá está uma grande nuvem de poeira ferruginosa que esconde a fúria dos cavaleiros tártaros, flagelo dos deuses sobre a terra. Em seus pequenos cavalos peludos como cães avançam, queimando e matando, e nunca houve nada que nossos exércitos pudessem fazer além da desonra da fuga ou da certeza da morte. Sim, foram eles, os bárbaros do norte, os homens que nos mataram. Apenas escrevo para mim mesmo enquanto a morte que escolhi não chega, antes da que me procura. Com os olhos postos no fogo relembro a história da torre e as controvérsias que a cercam: terei muito tempo para lembrar de minha vida daqui a pouco, quando estiver com meus ancestrais.
A torre de Lun-Piao foi motivo de assombro e de discussão durante décadas, e gerações se debruçaram sobre ela para tentar decifrar seu mistério, roubar seus tesouros ou adquirir seu conhecimento. Nega-se com veemência que alguém tenha conseguido (mas eu tenho motivos para pensar de outra forma). Ninguém guarda lembrança de como ela surgiu e suas origens pertencem aos domínios da lenda e da incerteza. Conta-se que foi erigida no espaço entre dois sóis, brotando da noite como um espectro.
Ao anoitecer não havia nada ali, mas no amanhecer seguinte o sol refletiu em suas pedras vermelhas e houve espanto e terror entre o povo e os nobres enterraram a cabeça nas almofadas para não vê-la e ordenaram aos músicos que tocassem muito alto para não ouvi-la. Como um chamado ela cantava quando o sol nascia e chorava ao anoitecer como uma criança de modo que todos perceberam que estava viva e não foram poucos os que temeram que se pusesse a andar pelo império como um gigante de pedra.
Em seu palácio, o Filho dos Deuses convocou às pressas os magos e os generais, os sábios e os matemáticos. Diante deles convocou também os verdugos e, ao vê-los, com as cordas de seda e as espadas, não foi preciso uma palavra para que todos entendessem. Em completo silêncio, com sinistra paciência, o Imperador apenas ficou esperando que cada um apresentasse de acordo com sua arte a explicação para aquela aparição que ameaçava o reino.
(O ópio agora exerce os seus benefícios: já posso ouvir os gritos que sobem como pequenas espirais de ouro contra o céu violeta e púrpura. Posso sentir cada pata de cada cavalo fazendo tremer a terra, em ondas crescentes de destruição. As inumeráveis flechas traçam linhas precisas no ar, voando lentas como grous. Em breve estarei morto.)
Os generais propuseram sem convicção que a torre devia ser atacada e destruída, mas nem sequer a miravam. Os magos reviraram em vão as vísceras dos bois e dos pássaros e calcinaram ao fogo o casco de uma tartaruga, mas os signos foram estéreis e nada puderam ler. Diante da perspectiva da morte, no entanto, foram pródigos em explicações vagas e alegaram a necessidade de ritos complexos e demorados. Os sábios ponderaram que a perturbadora construção pautava-se pelo rigor simbólico, pois apresentava em cada lado um dos quatro animais sagrados: a fênix, a tartaruga, o dragão e o unicórnio.
Alegaram também que na parte superior apresentava os signos dos animais e que não tinha portas nem janelas, nem trazia nenhuma palavra escrita. Ponderaram que suas pedras eram exatamente justapostas como as escamas do dragão e que os poucos que se atreveram a chegar perto dela puderam perceber que pulsava como se estivesse respirando. Sendo assim, o melhor seria render-lhe homenagem e incorporá-la à religião como se tivesse sido dada pelos deuses ao Filho do Céu. Os matemáticos limitaram-se a observar a rigorosa disposição de sua geometria, sua solidez magnífica e a enorme possibilidade de que a torre durasse para sempre, indiferente aos séculos. Foram os primeiros a enfrentar o verdugo.
Os olhos ainda piscavam em suas cabeças que rolavam sobre o solo quando um homem que ninguém descreveu entrou flutuando pela janela. Disse que era Lun-Piao, o alquimista, e que a torre não era nem um presente nem uma ameaça, mas a marca de um lugar sagrado para os deuses e que apenas por acaso era ali. Que nada fizessem e ela seria a garantia de que o Império do Centro duraria para sempre. Dito isso, flutuou para fora sem esperar resposta, para nunca mais. Satisfeito, o Imperador suspendeu as execuções e ordenou que assim fosse feito.
Desde então ela atraiu estudiosos e devotos de toda parte e foi observada com fervor dia e noite. Ao seu redor surgiram pequenos grupos de pessoas que a vigiavam, copiavam seu desenho minucioso em finas folhas de papel de arroz, mas ninguém ao que se saiba tentou tocá-la.
(Devo apressar-me: penso ter visto o vulto de minha avó acenar por trás do portal do Oeste. Os servos e concubinas já devem estar muito longe. Apenas ficamos eu e uma escrava que não quis partir, não sei por que. Talvez alimente a esperança de juntar-se com aos tártaros, talvez me ame, talvez apenas queira morrer.)
A torre perdurou como o Império do Meio, e foi o que me trouxe aqui. Muito jovem ainda me tornei um poeta reconhecido na Corte e mais de uma vez mereci os favores do público. Meus versos de amor, curtos e ardentes, eram repetidos nas praças e nos mercados e talvez sobrevivam na memória dos amantes. Aos poucos, envelhecendo na penumbra feliz da opulência, esqueci por completo a torre, como todos fizeram, incorporada na paisagem como uma montanha, inatingível como as nuvens.
Em uma noite desafortunada, não muito tempo atrás, fui forçado a mandar punir um escravo e seus gritos me perseguiram por toda a noite. Ao amanhecer adormeci e tive um sonho que teria consequências terríveis e desmesuradas. Eu estava em uma planície deserta, vasta e amarela, sob um céu de chumbo. Diante de mim brotou do solo com estrondo o Lung, o Dragão Primordial, com uma pérola na boca que brilhava como dez luas. Vermelho como a torre, disse-me que nela morava, que amava os poetas e que só por isso me diria como penetrar ali. Apenas me advertiu que não tocasse em nada e que nunca contasse a ninguém o que iria ver. Emocionado e reverente, prometi solenemente que obedeceria. Ao acordar, dirigi-me a torre sem hesitar.
À medida que me aproximava, meu coração batia tão rápido que temi que parasse. A sombra gigantesca cobriu-me como uma asa e apressei-me ao seu encontro. Diante da parede vertiginosa, na face Leste, havia a figura do “Lung”. Erguendo o braço, alcancei tocar uma das patas e pressionei uma das garras. A prometida porta surgiu à minha frente como se sempre tivesse estado ali. Uma escada circular subia rumo ao teto pelo qual parecia que entrava a luz do sol. Um fervor me embriagava: o de fazer algo vedado aos mortais, maior até do que o de estar onde ninguém havia estado. Avancei, sem olhar para baixo nenhuma vez.
Vista por dentro, a torre parecia ainda maior e a escada cessava, abrupta, em um ponto. Por uma porta circular entrei em uma câmara que aparentava ser infinita. Sem que me movesse, avancei para o centro, deslizando diretamente para o “Lung”. Pouco posso recordar desse encontro. Lembro que sua voz era serena e doce como uma melodia e que tinha os olhos de uma criança. A pérola em sua boca girava com matizes de todos os mundos e eu podia ver nela cada coisa e a mim mesmo e a sagrada desordem do Universo.
Quando voltei a mim estava em casa e um perfume desconhecido impregnava minhas roupas e meu cabelo.
Naquela noite, na Corte, houve uma grande festa e todos pareciam olhar para mim, principalmente uma mulher de grandes olhos negros que eu nunca tinha visto e que já não queria mais deixar de ver. Com os meus olhos nos dela, levantei a taça e celebrei a sua beleza em um poema inigualável no qual a comparava ao divino “Lung”, que descrevi com cores vivas, disfarçado pelo manto da poesia e impulsionado pelo vinho. Os cortesãos coraram de espanto e o Filho do Céu agraciou-me com uma lâmina de jade, mas não sorriu. A mulher passou a noite comigo, mas havia sumido pela manhã. Antes que os galos cantassem todos já sabiam que os tártaros estavam a caminho.
De alguma forma que não compreendo (mas aceito), o poema traiu o segredo, rompeu os votos divinos, afastou o Lung e destruiu a torre e o Império. E de tudo (oh, vaidade dos poetas!) o que me dói mais é que dos versos que nos condenaram a todos não restará lembrança.
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No décimo toque do despertador, levantei confusa, tateando atrás do maldito a fim de atirá-lo pela janela. Demorei tanto que ele desistiu de fazer barulho, caiu atrás da cômoda e não encheu mais o saco. Os óculos, eu não encontrava de jeito nenhum. No afã de enxergar alguma coisa, enxerguei o retrato dele, caído com a moldura para cima sobre o mesmo móvel embaixo do qual jazia o agora silencioso relógio.
Deixei o quarto a passos lentos, entrei no banheiro e não gostei do que vi no espelho – a esta altura da vida, já deveria ter aprendido a não dormir de maquiagem. Mas o sono me pegara de surpresa na noite anterior. Eu não deveria ter deixado que ele fosse embora. Enfim, não tinha mais tempo para pensar nisso.
Atrasada como sempre, não pude nem tomar café, porque eu tinha roupa para estender e já não contava com ninguém que fizesse isso por mim. Acabei achando os óculos embaixo da máquina de lavar.
Sempre fui para o trabalho andando, mas naqueles dias estava impossível. O calor de primavera me pesava demais na cabeça, me sugava as forças, e tudo na rua era poeira e cinza, o mundo era áspero e todo num tom de amarelo enjoado. Gastava muito em táxi, mas nem me arrependia: pegava tudo do caixa da loja.
As meninas que trabalhavam comigo no balcão eram gentis demais para serem sinceras. Sorriam como se fossem doentes, as megeras, mas eu sei que falavam mal dos clientes pelas costas. Certamente não gostavam de mim, em parte graças ao gerente, que ultimamente havia resolvido que simpatizava comigo.
Um pouco antes de sair para almoçar, discuti com uma senhora muito redonda que trazia uma criança no colo. Nem me lembro do motivo da briga, apenas sei que quando dei por mim estava vociferando, cuspindo gotículas de saliva no rosto da mulher enquanto a pele dela brilhava cada vez mais, de suor e de sebo, e a criança berrava em seu colo. “A senhora é uma ordinária, ouviu bem? Uma ordinária!”, eu gritava, ao que ela respondia “e a senhora é uma cretina que não deve ter marido que bem a sustente!”, e aquilo foi demais para mim. Só não virou coisa pior porque chegou o gerente, acalmou a mulher e me chamou para conversar em sua sala.
A sós com ele não conseguia falar mais nada, a raiva se embolando com as palavras na garganta e a saliva descendo atravessada. Ele sentou sobre a mesa na minha frente e me lançou um olhar compreensivo, depois deixou escapar um suspiro. Colocou a mão sobre o meu ombro e disse uma palavra que eu não ouvi, meus olhos despejados no chão. Eu era seca e vazia. Tomei coragem e disse que precisava ir para a casa. Ele condescendeu, mas eu bem que achava melhor que não o tivesse feito, porque queria um bom motivo para arranjar uma briga e me demitir daquele antro. Fui para casa humilhada e o pior: sob o cínico olhar de compreensão das víboras do setor de vendas.
Fui andando no mormaço, mas nem me dei conta do tempo que levei. Cheguei em casa, fechei a porta atrás de mim e caí no sofá, a armação marcando meu rosto. Solucei até colarem as pálpebras. Depois tomei um litro de água, que não agüentava mais de sede. No final da tarde, uma tempestade se armou lá fora e um vento fresco trazia o pó do asfalto para dentro, através da janela e das frestas das portas.
Segui até a cômoda e olhei pela última vez para o retrato, antes de estilhaçar-lhe a moldura e rasgar para sempre a foto: ele não voltava mais. Não adiantava esperar, porque ele não estava longe, muito ao contrário: ele era o pó que estava por toda a parte e que entrava pela janela, o pó que há tanto tempo se acumulava sobre a cômoda, sobre o relógio ainda atirado no chão, sobre o retrato que não mais existia e sobre mim mesma. E eu precisava me livrar do pó.
Tirei os óculos: “amanhã me preocuparei com isso”. Em seguida, adormeci.
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Ela chegou lá pelas 22 horas e foi embora às 2 da manhã se segurando – quase caindo pelos lados e sorrindo de ponta a ponta – no pescoço de um cara que bem poderia ser o seu pai. Estava enfiada em um vestido bem curto, meio apertado e todo preto. Não sei o que os seus pés usavam, porque para eles nem olhei. Fixei observação em suas coxas, na tez branca lisa, na quantidade exata de pele em um espaço milimetricamente moldado. Tão jovem e tão bonita. E com um cara que poderia ser seu pai. Ainda mais um assim tão acabado, ainda mais um assim que segura o cigarro vagabundo com as pontas do dedo sujas. O cabelo mal emparelhado. Aposto que você nem sabia o nome. A cena era esdrúxula e repugnante, apesar disso, talvez por revolta própria ou talvez pelas coxas dela tão a mostra, acompanhei o passeio cambaleante dos dois e logo virei os olhos em sinal silencioso de reprovação...
Adélia, minha esposa, percebera todo o movimento dos meus olhos, que fugiam e voltavam para a coxa branca da desconhecida, acompanhando o seu trajeto até a saída. Por sinal, nossa cena era esdrúxula também: Adélia me observando e eu vislumbrando o bizarro casal.
Será que alguém observava Adélia?
Foi um ligeiro e premeditado tapa no meu braço que me fez voltar para a mesa do bar, para o casamento, para a instituição de fidelidade. O tapa também veio acompanhado da voz fina, agora temperada com um pouco de rancor: “me pega mais um drinque no bar”. E só. Nada de me chamar pelo nome, de falar com aquela voz meiga de quase bêbada que eu conheço tão bem. Só me empurrou o copo, que ostentava como um prêmio entre as várias marcas circulares de cerveja na mesa.
Segui quieto até o bar, tranqüilizado pela promessa do que estava em troca: depois que pegasse a bebida, o rancor já teria passado, ela voltaria a beber e, como sempre, falaríamos da semana, e sobre os problemas dos nossos respectivos trabalhos. É assim que funciona. Adélia e eu costumamos sair toda sexta à noite para fugir da nossa rotina de casal recém oficializado e que namorou muitos anos antes de subir ao altar. Como se fosse possível criar um muro que dividisse as coisas.
O problema é que estava tudo se debatendo na minha cabeça, coxa branca, vestido apertado, dedos sujos, tapa, rancor. Felicidade premeditada. Cheguei ao barman mais próximo, perguntei as horas e da minha boca escapou, impulsivamente, uma pergunta que misturava tudo isso:
“aquela moça que saiu agora há pouco acompanhada com um cara mais velho... ela vem sempre aqui?”
Ele não entendeu de imediato, precisou de descrição mais detalhada sobre a aparência, o que vestia. Explanei várias características ainda tão vivas em minha mente e então o garçom acabou reconhecendo. Abanou com seu rosto gordo um gesto positivo. A via freqüentemente, não toda noite, mas com certa assiduidade. “Fala espanhol misturado com português, parece que veio da Argentina, sabe como é, essas gringa são tudo louca. Sei que bebe todo tipo de bebida e toda noite sai com alguém diferente”. Foi o que disse, em exatas palavras.
Levei o copo cheio de cerveja de volta para nossa mesa, esperando (lá no fundo, depositando grandes esperanças) que a castelhana aparecesse, se enrolasse em meu pescoço e me levasse embora para terras onde ela bebesse, ficasse louca e tirasse o microvestido preto. E onde eu pudesse ver tudo, tudo. Todo dia seria sexta feira à noite.
Mas ela não estava por ali.
O que eu via era Adélia a minha frente, com o cotovelo encostado à mesa, a mão segurando o rosto, os olhos virados, fixados na mesa. Cabelo castanho desidratado e a cabeça, dançando suavemente com a música brega que toca no bar. Daqui a pouco iríamos conversar sobre a sua colega grávida. Ela dirá que foi uma imprudência, e que nunca deve se agir sem muita reflexão. Pensei em fugir com o copo de cerveja, correr atrás daquela coxa, implorar por um pouco de sórdida perversão.
Entreguei a bebida para Adélia, sentei, desviei os olhos da minha mulher, procurando a porta. Roubei um gole. Ela não parecia mais brava. Já estava naquele estado em que bastava que eu estivesse ao seu lado, como se só isso fosse o fundamental. Talvez o motivo de todas as ilusões que a gente possa ter.
Então, deslizando o meu braço, olhando ao redor, ainda desejando que aquela coxa branca maluca e milimetricamente ajustada estivesse por perto, perguntei fixando nos olhos de minha esposa, quase como uma imposição, quase como uma ironia interna:
“amor, o que você acha de viajarmos para a Argentina?”
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