Uma das poucas vantagens de se viver em um país supostamente católico é poder aproveitar o tempo de folga criado pelas datas religiosas. No último feriadão de Nossa Senhora de Aparecida – a.k.a. Dia das Crianças -, fui a Sapiranga conhecer um festival que chega a sua terceira edição conquistando fãs e o reconhecimento de músicos e críticos, o MorroStock.
De 9 a 12 de outubro, centenas de pessoas se reuniram aos pés do Morro Ferrabraz para acompanhar a intensa programação cultural oferecida pelo evento. Dentre bandas de rock famosas e iniciantes, apresentaram-se músicos catarinenses, mineiros, pernambucanos, capixabas, argentinos e de todo o nosso estado. Além dos muitos shows, houve oficinas de gastronomia vegetariana, performances teatrais, debates sobre música e exibição de filmes alternativos.
>Em Porto Alegre, o feriadão estava sendo marcado por um abafado calor primaveril, mas, na tarde de domingo, nuvens negras encobriram o céu e uma enxurrada tomou as ruas. Às 18h, a ira de São Pedro atingiu seu ápice e eu entrei parcialmente encharcado em uma van alugada. Era o meio de transporte da banda Suco Eléctrico (ver entrevista abaixo), que estava com show marcado para às 22h 30min. De acordo com a programação, eles seriam a sétima das quinze bandas daquela noite.
Apesar dessa ter sido sua primeira vez no festival, a Suco Eléctrico já tocou em outras ocasiões no BARDOMORRO, local que acolhe o furdunço. “É muito legal lá porque Sapiranga se autodenomina a Cidade do Rock”, conta Alexandre Rauen, baterista e um dos vocalistas da banda. Ele desconhece as origens desse fenômeno cultural, mas o vê com extrema simpatia. “O Rock é muito forte lá, eles adoram ver bandas novas, nos nossos shows sempre tem fãs cantando todas as músicas, às vezes até as que não estão no cd. É “afude” que é uma galera enlouquecida, mas muito da paz”, afirma.
O Alexandre canta em várias das músicas, mas o vocal principal do grupo pertence a sua irmã, Dani Rauen. Segundo o baterista, a entrada dela foi natural. “Quando eu e o Cássio [K.C.O. Lino, o guitarrista] começamos a compor no violão, a gente pensou em ter um vocal agudo. Em casa, eu ouvia a Dani cantando no chuveiro e achava que ela cantava bem, então chamei ela”. O trio foi a gênese do que viria a ser a Suco Eléctrico. Quando Augusto, um segundo guitarrista, entrou e o Fernando “Drunk” Rodrigues assumiu o baixo a formação ficou completa.
Apesar dos pneus da van vencerem os quilômetros da BR-116, a paisagem não mudava: só o que se via era uma espessa cortina d’água. Enquanto meditava sobre a minha recém descoberta de que teríamos que cruzar um trecho de chão batido para chegar ao festival, Alexandre me dizia que o nome fora inspirado no fantástico “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico”, de Tom Wolfe:
Hoje, a banda funde as influências psicodélico-sessentistas a um ritmo mais dançante, característico do Rock contemporâneo. Porém, em 2000, quando começou, ela tinha outra proposta. “Inicialmente, a ideia era que o nosso som fosse um instrumento de alteração da percepção, então a gente experimentava muito. As músicas eram demoradas, sem estrofe e refrão, um negócio muito louco. Com o tempo, a banda incorporou uma referência mais pulsante, de um Rock sem muita firula. Acho que a gente conseguiu achar um equilíbrio – não indo pro punk nem pro progressivo”, diz Alexandre.
Num piscar de olhos a conversa preencheu o tempo da viagem. Quando eu vi, o relógio já marcava 20h e uma estrada de terra nos encarava. Para a feliz surpresa de todos, a pista estava em condições muito melhores do que o esperado. Sem atolar, em poucos minutos, estávamos no MorroStock.
Está para nascer expressão artística que atinja o Homem de maneira tão intensa quanto a música. Acredito que esse objetivo fundamental seja compartilhado por todas as artes, porém, uma sequência melódica unida a uma marcação rítmica encerra uma força primordial única, que mexe com o aspecto mais instintivo da mente humana.
Para mim, é isso que explica o fato de quase trezentas pessoas (ao menos me pareceu essa quantidade) estarem presentes naquela noite chuvosa. Embora houvesse uma grande lona cobrindo o palco e um bom espaço para a platéia, tentar manter-se incólume à água e ao barro era inútil. Para fazer qualquer compra, era necessário passar no guichê externo do BARDOMORRO, que ficava a uns 20m da área coberta, à total mercê da tormenta.
Mas como roqueiro não é de açúcar, nem jornalista, não houve maiores problemas. Aliás, a possibilidade de estar sujeito às intempéries climáticas é justamente o que diferencia o MorroStock dos festivais que costumam acontecer em nosso estado atualmente. Liliane Pereira, que prefere ser chamada de Lili, organiza o evento desde a primeira edição junto ao seu companheiro Paulo Zé Barcellos. Ela conta como surgiu o projeto:
Essa foi a edição do MorroStock que teve mais apoio. Diversas empresas, além da Prefeitura de Sapiranga e da Unisinos, contribuíram para o sucesso do evento. O músico Frank Jorge coordena um curso de Formação de Músicos e Produtores de Rock e me conta que fez a ponte entre o Paulo Zé e a universidade:
O saxofonista Ricardo Cordeiro, bem mais conhecido como King Jim, hoje integra o Núcleo de Música da Casa de Cultura Mário Quintana. Ele acredita que o MorroStock é evento muito importante. “É uma bela iniciativa, mas está faltando amadurecer a parte financeira para que os artistas tenham a estrutura que merecem. Sempre é bom o apoio das empresas, mas a mídia oficial tinha que ajudar mais e ela é meio babaca” aponta.
O axioma afixado na parte interna do bar é a Lei Mater do local. Observar a decoração é fundamental para compreender os ideais da casa. Apanhadores de sonhos artesanais convivem nas paredes com discos de vinil e pôsteres de lendas da música. Um grande painel intitulado “Cigarretes papers of the world” expõe embalagens de sedas do mundo todo e ainda traz a sugestiva pergunta: “what’s your number?”. Para aqueles que sentem falta de algum entretenimento esportivo há mesas de sinuca e jogos de fla-flu a disposição.
Segundo a organizadora Lili, o BARDOMORRO foi escolhido porque, além de ter essa visão voltada ao Rock, possui em frente uma área de camping que possibilita contato com a natureza. “Quando a gente chegou aqui pela primeira vez não tivemos dúvida: ‘bah, é aqui que nós vamos fazer o festival!’”, ela diz. Até um açude pode ser usufruído pelos visitantes – apesar de eu não tê-lo visto em momento algum da noite, não sei se por excesso de chuva ou de cerveja.
O terreno que abrange o bar e o camping está situado aos pés do palco de um sangrento episódio da história gaúcha: a Revolta dos Muckers. Em breves linhas: em 1873, imigrantes alemães que haviam se instalado no Vale dos Sinos, liderados pelo curandeiro João Carlos Maurer, se organizaram para reclamar da educação e da saúde oferecidas pelo governo. Nessa época, a mulher de João, Jacobina Maurer, já ministrava sessões religiosas em sua casa que atraíam muitos admiradores. Com vocação para messias, Jacobina proclamava-se a reencarnação de Cristo. Chegou um ponto em que ela passou a incitar seus seguidores a criarem uma cidade própria para os eleitos de Deus (que eram eles, claro).
Jacobina e seus fiéis (apelidados de “muckers”, que significa santarrão, falso religioso, em alemão) seguiam um estrito código moral que beirava o fundamentalismo: não bebiam, não fumavam, não iam a festas e ainda condenavam todos que o fizessem. É fácil entender porque eles não contavam com a simpatia do resto da comunidade, a quem chamavam de “spotters”, que significa debochadores.
A hostilidade aumentou quando os muckers retiraram seus filhos das escolas comunitárias da região. O fato gerou um tumulto e Jacobina e seu marido foram presos. Mas logo foram soltos e, depois disso, os fiéis passaram a assassinar seus principais opositores. A casa de Martinho Kassel, um ex-mucker, foi incendiada, matando sua mulher e filhos. Aconteceu o mesmo com a residência de Carlos Brenner e os filhos dele também morreram. Duas lojas e mais duas casas foram atacadas e até um tio de João Carlos foi morto.
Em junho de 1874, as autoridades decidiram acabar com a seita, mas, na primeira ofensiva policial, morreram 39 soldados e só 6 fiéis. Um mês depois do vexame, a residência do casal foi incendiada pela polícia, que prendeu cerca de 40 muckers e matou 18. Jacobina e João, porém, conseguiram fugir para a mata do Morro Ferrabraz com alguns de seus seguidores. Lá, eles resistiram até agosto de 1874, quando foram traídos pelo mucker Carlos Luppa. Jacobina e seu marido foram mortos com a maioria de seus discípulos. Os poucos que sobreviveram não escaparam da prisão.
As bandas que tocaram na noite de domingo alcançavam um amplo espectro de influências musicais. Quando cheguei, estava no palco a Clã Mcloud, de Caçapava, que faz um som pesado, inspirado no Rock’n’Roll mais tradicional. Na sequência, vieram os Gulivers e os Valentinos, de Porto Alegre, com uma sonoridade mais moderna, ligada à cena indie-rock. Depois, tocou a blueseira Táxi Free, também da capital, que estava programada para às 18h 45min, mas se atrasou porque seu carro estragou no caminho. Teve ainda a surf-music instrumental do Reverba Trio, a psicodelia dançante da Suco Eléctrico, as baladinhas sem-noção do Zé do Belo (que tocou com o saxofonista King Jim), o rockzão alucinado de Plato Divorak e os Exciters e o mais que famoso Frank Jorge.
Destaco ainda o divertidíssimo show que uniu Plato Divorak, Frank Jorge e a Empresa Pimenta. Para mim, o ponto alto da apresentação foi a versão em português - chulo, repleto de obscenidades - do clássico “Wild Thing”. O refrão “Wild thing/ You make my heart sing/ You make everything groovy” tornou-se “Gata/ Gatinha louca/ Que nunca soube amar”, para se ter uma ideia...
Os últimos shows que eu assisti foram os da Pública e do Bebeco Garcia Trio. O primeiro foi o atestado de competência de uma banda gaúcha que é cada vez mais respeitada. Mas o segundo, para mim, foi um triste retrato da decadência. Talvez por respeito à importância histórica de Bebeco no Rock gaúcho poucos o critiquem, porém o que eu vi foi um cantor fraquíssimo, carente de voz, que não se redimiu nem em seus solos de guitarra. Havia técnica, mas não sentimento. Uma pena.
Como a tempestade impedia que as pessoas se espalhassem muito pelo terreno houve uma polarização do público. Ou o sujeito assistia aos shows perante o palco principal, ou se aglomerava dentro do não tão grande BARDOMORRO. Foi lá, meio apertado, que tocou o Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense. Apenas com instrumentos acústicos - violão, violino, bandolim e contra-baixo - o grupo ganhou o público com antigas canções desse sub-gênero da música country norte-americana.
Após o show, foi instalado um projetor de imagens na sala que, primeiramente, estava transmitindo o canal a cabo “FX”. A programação tornou-se mais interessante algumas horas depois. Foram exibidos o elucidativo documentário “Grass” e a versão animada dos quadrinhos geniais de Robert Crumb, “Fritz, the Cat”. Na realidade, os filmes eram puramente decorativos, pois ninguém os assistia. Estavam todos ocupados demais cantando e dançando ao som de violonistas amadores.
Preciso confessar que, das infinitas rodas de violão que já presenciei, essa foi, de longe, a mais empolgada, com mais participantes e com maior tempo de duração. Nunca pensei que fosse possível mobilizar um recinto com cerca de trinta pessoas tocando, basicamente, tantas músicas do Raul Seixas. Nota: por mais obscura que fosse, a maioria dos presentes conhecia a letra de cada música tocada. Só em Sapiranga.
Nessa ocasião, conheci Fernando Ferreira, um estudante que veio a todas as edições do MorroStock. Na avaliação dele, a cada ano, melhora a qualidade do evento. “É tri porque cada vez mais o festival acolhe a comunidade do Rock, de forma bem eclética”, afirma. Fernando, porém, faz uma confissão e uma crítica: “só acho que o ingresso é muito caro. Eu venho porque moro perto e posso pular a cerca”.
Conversei também com um metaleiro que prefere ser identificado apenas como Alemão. Ele conta que só compareceu dessa vez porque ganhou o ingresso em uma promoção da Ipanema FM. “Mas eu vim no último e gostei mais dessa edição. Nesse ano a coisa está bem mais apimentada e a divulgação melhorou”, atesta.
Eram 4h 30min de segunda-feira, quando a Suco Eléctrico me informou que estávamos partindo. E a gurizada se mantinha convicta ao redor do violão. No palco principal, a Tarcisio Meira’s Band se preparava para entrar e muitos ainda estavam lá vê-la. Quem acha o Rock é valorizado em Porto Alegre precisa desesperadamente conhecer Sapiranga. Para o King Jim, “a cultura está, de certo modo, estagnada em nosso estado, e esse festival mostra como o interior tem pungência para lidar com o Rock’n’Roll”.
Após esperar meia hora até que o nosso motorista aparecesse, eu e a Suco Eléctrico iniciamos nossa viagem de volta. A chuva continuava a cair, mas já não importava. Eu só conseguia pensar no quão irônico era o fato de um covil de assassinos moralistas ter se tornado um reduto de diversão roqueira.
Como está sendo a divulgação do 1º CD da banda?
Vocês já tinham lançado algum outro material?
O que é esse “7007” na capa e na contra-capa do disco?
E como foi a gravação?
Vocês estão com um clipe agora, né?
O que aconteceu que mudou a formação da banda?
Vocês têm empregos alternativos?
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“Espalhe energia e otimismo. Este é o seu ambiente!”. Essa frase parece ter sido retirada de um livro de auto-ajuda, mas na verdade está pintada em enormes letras numa das paredes, ao lado da pista de dança do Rei do Bailão. Junto das palavras de ordem do local, o retrato desenhado de um casal abraçado, de rosto colado, imitando aqueles que dançam na pista. A casa noturna – forma que talvez não seja a mais apropriada de chamá-la já que também abre as portas nos domingos à tarde – está localizada na Av. Assis Brasil, quase esquina com a Sertório, na Zona Norte da Capital. E não é só a frase pintada num muro da danceteria que surpreende. Desde a chegada, já se notam rotinas incomuns à maioria das casas de shows da cidade.
Chegando se recebe a notícia de que naquela noite, assim como na maioria dos eventos ali realizados, mulher não paga. Passando à entrada, para surpresa de quem já se preparava para ser revistado, todas as pessoas entram sem que um documento de identificação lhes seja pedido ou passe pelo ritual de ser apalpado por algum fortão de preto, prática corriqueira hoje em dia.
Antes da meia-noite não espere muita movimentação, o público é reduzido. Às 23h de um sábado não são mais do que 30 pessoas. No enorme salão, logo em frente à entrada, há um imenso tablado de madeira encerada. Ao fundo dois palcos, um deles já ocupado pela banda que tenta animar os poucos presentes. A pista de dança, até aquele momento vazia, é circundada por mesas semelhantes as que se vê em botecos. No teto, a decoração lembra o carnaval, com serpentinas penduradas. Não existe jogo de luzes ou qualquer efeito visual, a não ser os canhões de luzes coloridas no palco.
A maioria das pessoas que estão ali naquele começo de festa são mulheres sozinhas ou em duplas, com mais de 35 anos. O ambiente simples dá margem a todos os tipos de pessoas, vestidas das mais diferentes formas. Entre as mulheres predominam roupas que privilegiam a exposição do corpo – mesmo que ele não esteja no esplendor de sua forma física.
Há garçons que caminham de um lado a outro, batendo com uma colher nas garrafas de cerveja, tentando chamar atenção para que alguém compre alguma coisa. E a pouca formalidade permite que eles fumem durante sua peregrinação pelos arredores do salão.
Durante a festa, um homem, com aparentemente 40 anos, atrai olhares pela estranheza que causou. Ele escolhe uma mesa para acomodar-se, vira-se para o palco, como quem pretende assistir ao show e inesperadamente tira do casaco fones de ouvido. E segue ali olhando para a banda e escutando qualquer outra coisa que não a que é tocada pelos artistas. Mais tarde, o pessoal que freqüenta o lugar contou que ele é conhecido como “louquinho”, um andarilho de rua, já popular naquela região.
Depois das 23h30, as pessoas começam a chegar em maior número. Meninas que certamente têm menos de dezoito anos, homens de todas as idades, casais idosos, grupos de amigos e até famílias inteiras – pai, mãe, filhos e avós. Lá pelas tantas, a banda pede para que todos cantem parabéns a um garoto que está completando catorze anos naquela noite. Com certeza ele não era o único com aquela idade. Amigas que usavam tiaras rosa, imitando orelhas de gatinha, o acompanhavam.
A essa altura, os primeiros casais se arriscam na pista de dança e os demais, como que atraídos ou encorajados por eles, fazem o mesmo. O que mais chama atenção, na verdade, não é a dança, mas o fato de que as pessoas se levantam para dançar e deixam seus pertences nas mesas sem que ninguém fique para tomar conta. Olhando em volta não se vê seguranças, apenas os garçons e alguns auxiliares desses. Quando a banda anuncia que tocará uma valsa, atendendo ao pedido de um dos senhores ali presentes, faz com que imediatamente as pessoas que começavam a esquentar o corpo no salão esvaziem a pista. Apenas um casal permanece um ali, de certo o que pediu a música. E dança sozinho o par. A música tocada exclusivamente para eles. A não ser a valsa, todas as músicas parecem ser sempre as mesmas. A acústica do local, ou talvez a precária aparelhagem de som das bandas, não permite que se entenda bem as palavras cantadas. Pode ser também que o problema seja a pouca habilidade vocal do cantor em questão. Em um momento a banda anunciou que ia tocar uma música do Alexandre Pires – cantor que, para quem não era nascido ainda, fez sucesso tocando pagode nos anos 1990. Enquanto a música tocava, muitas pessoas conversavam se perguntando que canção era aquela, arriscavam pelo som, mas só adivinharam ao entender uma frase do refrão.
Na verdade, o que importa para os que estão à espera de arrastar os pés nas tábuas do salão é o ritmo. A batida da música. Tanto que a valsa não agradou ninguém. O que faz sucesso mesmo são as músicas em estilo marchinha, ou bandinha. É difícil explicar como se dança esse tipo de música. Os casais dançam ao passo de “um e um”, “um pé pra cá e outro para lá”. E, assim, rodopiam pelo salão, de rostinhos colados. Alguns nem tanto, porque o tamanho avantajado da barriga dos cavalheiros, ao conduzir as damas, não permite que elas se aproximem mais. Ou então porque alguma moça concedeu a honra da dança a alguém com quem não queria dançar, só para não ficar sentada durante aquela música que a fazia se remexer sozinha no lugar. Quando são muitas mulheres para poucos homens, não há como se dar ao luxo de negar um pedido para bailar. Muitas damas dançam juntas. E se divertem rindo umas das outras, ensaiando passos diferentes para quando dançarem para valer – com um homem – possam lhe conquistar por mais de uma dança.
Dois homens pareciam ter se perdido de um baile de Centro de Tradições Gaúchas (CTG). Pilchados, ambos usavam lenço vermelho adornando o pescoço. Um, mais idoso, só observava. O olhar parecia de recriminação em relação à postura das pessoas ao dançar. O outro devia ter sido expulso da instituição por infringir as tradições gaúchas. Fisicamente se via que já estava tomado pela ação de bebida alcoólica (na verdade um eufemismo para não dizer que estava completamente mamado) e levava a cada pouco uma “chinoca” diferente pro tablado. Os homens, por sua vez, tendo muitas opções, ficam do lado de fora da pista com a cabeça em alto, como se fossem falcões, observando à presa. Mas, que não se atrevam a desrespeitar a moça ao dançar. Mão na bunda é tapa na mão.
A Assis Brasil é, talvez, a avenida com o comércio mais intenso da cidade. Você passa ali durante o dia e vê centenas de pessoas trabalhando atrás de balcões, na limpeza das lojas e da rua, atendendo nos bares, lavando carros, vendendo qualquer coisa nas calçadas. Pois, são justamente essas pessoas calejadas da dura luta diária por um salário muitas vezes indigno no fim do mês que encontram momentos de distração aos fins de semana no Rei do Bailão.
Deixando o Rei no meio da madrugada, vê-se que o salão já está bem diferente das 23h: com a pista cheia e os dois palcos ocupados por bandas que se revezavam na animação da festa. Na rua, as pessoas continuam chegando, dando o sinal de que a função vai até o amanhecer. Há poucos veículos estacionados, e táxi aos arredores é artefato raro, porque a procura também é pouca. Na volta para casa, o ônibus que embala essa gente diariamente de casa para o trabalho e vice-versa, também deve os acolher depois da bem aproveitada noite de folga.
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Cinco da manhã e saíamos de Porto Alegre. Exatamente no horário marcado. Quase um milagre, para quem conhece a minha relação descompromissada e pouco séria com a pontualidade. Saímos do Sarandi. Pegamos a freeway antes de o sol nascer. Pé na estrada. Pé na tábua. BR-101, BR-282. Antes do meio dia entrávamos em Floripa. Mais um pouco e estávamos no nosso destino. Camping Escoteiro. Rio Vermelho.
Ele já estava lá esperando. Ele que nos fizera deixar namoradas, amigos, famílias e até a prancha de surfe em casa, pegar a estrada em obras com duas ou três horas de sono e dedicar nosso sagrado feriado a batucar no meio do mato com um monte gente desconhecida.
Conversava tranqüilo. As mãos nos bolsos da bermuda, a voz tão calma - assim como seu comportamento - quanto grave. Um pouco pelo infindável Derby azul que faz questão de fumar até quando canta ou dá instruções aos batuqueiros, um pouco pelos seus já sessenta e um anos de história. Nos pés, as que não soltam as tiras. Bermuda branca, a camisa vermelha - quase sempre uma vermelha, cor do Leão - e a boina branca - essa sim, uma constante. Por trás das grandes lentes de grau, o rosto negro e o sorriso malandro. De longe, um típico membro da velha guarda de uma clássica escola de samba do Rio de janeiro. Mas chegando mais perto, os bombos são de madeira e o canto é de nagô. Com um belo sotaque pernambucano.
“Meu nome é Afonso Aguiar, sou dirigente do Leão Coroado. Não sou mestre, porque mestre, pra mim, era Luis.”
O Maracatu de baque virado, ou Maracatu de Nação, é uma manifestação cultural e religiosa afro-brasileira, oriunda de Pernambuco. Envolve som de percussão acompanhado por um cortejo real. Os registros mais antigos datam de 1711, em Olinda. Mas, de início, é importante salientar que as informações e datas distantes não são precisas. Isso decorre de a tradição ser passada oralmente através das gerações, porque a grande maioria dos escravos era analfabeta e porque foram muitos os períodos de perseguição às manifestações culturais africanas no Brasil. Também é complicado precisar como era o Maracatu no começo.
O som do Maracatu é produzido pelas alfaias, taróis, gonguê (metalofone) e ganzás (chocalhos de metal). O Mestre puxa as toadas, ou loas, e o coro responde. A batucada acompanha um cortejo real, com provável origem nas festas de Rei do Congo. À frente da nação, assim como em uma escola de samba, vem o Porta-Estandarte carregando o Pavilhão que identifica o grupo. Logo atrás vêm as Damas do Passo, que carregam as Calungas, bonecas de madeira que representam os ancestrais da nação. Para Afonso, a Calunga é o elemento mais importante do Maracatu, pois traz a ligação com a raiz. Segue a corte: duque, duquesa, príncipe, princesa, ministros, embaixadores... Eles abrem alas para o Rei e para a Rainha da nação, protegidos pelo palio, grande guarda-chuva carregado pelo vassalo. As baianas representam as escravas. Em volta do cortejo, oferecendo proteção, lanceiros, o caboclo de pena, que representa o indígena, e, eventualmente, soldados Romanos.
A origem do Maracatu está ligada ao culto Nagô. A influência da religião no Maracatu se mostra nos compromissos e obrigações que alguns membros da nação têm de cumprir no terreiro antes de desfilar. Uma semana antes do carnaval, acontece a Noite dos Tambores de Olinda, ou Tambores Silenciosos, onde todas as nações se juntam para pedir proteção aos ancestrais.
O ano era 1996 e aos 97 de vida, hipertenso, com a saúde debilitada e sem mais força ou ânimo para levar adiante o Leão Coroado, Luís de França decide deixar a direção do Maracatu. No carnaval deste ano, o Leão, que defende com orgulho o título de precursor do maracatu no carnaval, esteve prestes a não desfilar. Foi a muito custo que o Mestre conseguiu reunir um grupo de cerca de dez pessoas e desfilar atrás da Nação Elefante, rival histórica do Leão, apenas como convidada.
Provavelmente já prevendo o momento que não tardaria por vir - como só um senhor de 97 anos deve prever - Luís resolve procurar um sucessor para levar a frente os então 133 anos do Leão. Tarefa que Luis realizou desde os anos 50. Não seria uma escolha fácil. Foram apresentados diversos candidatos ao Mestre Luís. Ele reprovou, um a um, cerca de seis pretendentes.
Insatisfeito com todos os candidatos, sem condições de seguir na direção do maracatu e decidido a não entregar o Leão ao museu, Luís de França havia tomado uma decisão: atearia fogo a todos os pertences da Nação e acabaria de vez com o maracatu com mais tempo de atividade constante. Em termos práticos, até não seria uma tarefa muito difícil, visto que, a esta altura, o Leão Coroado se resumia praticamente a algumas alfaias sem couro, um estandarte feito em 1989 , o palio e as calungas. Não havia mais batuqueiros, associados ou qualquer um que agüentasse o comportamento arisco e o mau humor do Mestre. Eis que em Outubro, através de Roberto Benjamim, da Comissão Nacional de Folclore, Luís de França conhece Afonso Aguiar. A afinidade foi instantânea e deu-se, primeiramente, por questões religiosas. Os dois eram babalorixás, sendo Afonso filho de Obaluaiê e Luís, de Xangô.
A princípio, Afonso não tinha nenhuma intenção de assumir a direção do Leão. Mas para Luís de França não restava dúvida alguma: ele era o homem certo. A certeza de Luís foi mais forte quando ele consultou os búzios que o confirmaram tratar-se de um verdadeiro amigo. Nesse dia os dois firmaram o pacto que passava às mãos de Afonso a secular tradição do Maracatu Leão Coroado. Apesar de ter toda a sua história de vida relacionada ao candomblé, à cultura negra e à percussão, Afonso sequer sabia tocar Maracatu.
Foi o Mestre Luís de França quem lhe ensinou a tocar. Durante o curto período em que conviveram, foram passados os conhecimentos e a tradição do Maracatu Leão Coroado. Tradição que Afonso faz questão de seguir à risca.
Quando desembarcamos tivemos a impressão de haver muito pouca gente para a oficina. Conversavam ao redor do mestre cerca de sete pessoas, mais a nossa tripulação. Ainda era pouco. Pensei que viessem pelo menos quarenta.
Éramos quatro pessoas - eu, Roberto, Xitão e Raquel -, três alfaias e um tarol amontoados em um Citröen C3. A mim restaria tocar o tarol na falta de uma alfaia. Ou de outro tocador de tarol.
Cumprimentos rápidos e subimos para a área de camping para procurar um local sossegado e levantar acampamento. Logo na entrada ficavam a residência do caseiro e o local que servia ora para comer, ora para batucar. À frente, num plano mais alto, um longo corredor de floresta de eucaliptos onde se localizava o banheiro coletivo, ao redor alguns aglomerados de barracas. Mais ao fundo, isolado, o local que escolhemos.
O corredor comprido terminava nas dunas de uma praia deserta, provavelmente acessada somente pelo camping. Uma linda praia de um mar gelado com grandes ondas tubulares que quase nos faria perder o almoço do dia seguinte brincando n’água. Pulando onda feito criança.
Acampamento montado, ainda faltava montar as alfaias, que viajaram desmontadas por questões de espaço. A partir daí, segue uma rotina de batucada da manhã à noite com estratégicos intervalos para Alimentação, Descanso e Sono. Alguns abriam mão do Sono pra ficar batucando até as cinco da matina no terreiro-refeitório. Pra quem dorme de noite, o Descanso sobra pro pito e pra cachacinha. Imprescindível, diria o Xitão, pois retempera a fé dos batuqueiros.
Batuqueiros de primeira viagem, ninguém da tripulação tinha qualquer experiência nesse sentido. A alfaia se assemelha ao bombo legüero tocado pelos gaudérios. Tem estrutura de madeira, couro dos dois lados - couro mesmo, nada sintético. Porém sem pêlos, diferente do Legüero. Um aro de madeira com furos periódicos vai por sobre o couro. Pelos buracos passa uma corda que une os dois aros. A tensão da corda é o que dá a afinação da alfaia. Mas até isso acontecer: um interminável passar de cordas por buraquinhos e encaixa-desencaixa de aros e couro. Isso torna a afinação mais complicada e cansativa do que a de um tambor fabricado industrialmente como o tarol, por exemplo.
Alfaias montadas e afinadas, eis que soa, lá embaixo, o gonguê. Hora de descer pra primeira batucada. E já de chegada, pudemos perceber que aquela aparente meia dúzia se tratava de não menos de cinquenta batuqueiros.
Assim é uma alfaia, pelo menos no terceiro milênio. As primeiras alfaias eram feitas de barril. Depois se passou a utilizar troncos de algumas árvores, como a Macaibeira, uma espécie de Palmeira. As “macaíbas” são usadas ainda hoje. Elas são mais pesadas de carregar nos cortejos do que uma alfaia de compensado, mas produzem muito mais som.
Disputada nas oficinas, a alfaia é o instrumento característico e marcante do som do maracatu. São as alfaias que dão o grave, o trovão. Marcou TUM ta-Tum ta-Tum TUM, é Maracatu de baque virado.
A alfaia é tocada com uma baqueta grossa - ou baque - na mão que dá as batidas fortes. A outra segura o bastão de lado, produzindo um som diferenciado e bem característico do estilo. Daí que vem o “baque virado”.
A principal fonte de renda da maioria das nações é a contribuição paga às entidades que participam do desfile oficial do carnaval. Porém, há nações que preferem não sair no desfile. O Leão de Afonso desfila todos dias do carnaval, mas a nação não entra na competição.
Sob a liderança de Luís de França, o Leão disputava o prêmio. E chegou a ter Afonso à frente na avenida por três anos. Ele explica que tomou a decisão de sair da competição “pra não ter que mudar”. “Automaticamente, pelas regras da federação, o que ia acontecer era o Maracatu sair da rota, se estilizar. Eles fazem imposições e, aos poucos, vão mudando a essência da coisa. Leva a nada, né? Se você sai das suas tradições, você perde a sua identidade.”
Afonso credita o fato a um “estrelismo” gerado pela ilusão que o título de campeão representa. “Dói você ver uma coisa que os nossos ancestrais trouxeram com tanto sacrifício e hoje você vê as pessoas daqui mudando de ritmo, mudando as coisas porque acham bonito. Ao invés de ser tradição, passa a ser moda. E moda acaba.”
Sem a verba do carnaval, o Leão sobrevive através da cultura. A Lei do Registro do Patrimônio Vivo de Pernambuco, de 2002, concede bolsa vitalícia a artistas e entidades populares que se dediquem à defesa do patrimônio cultural de Pernambuco. Não são exigidas modificações para a concessão do benefício, apenas o compromisso de transmitir saberes e fazeres em eventos e programas promovidos pela Fundarpe, Fundação do Patrimônio Histórico e Cultural de Pernambuco.
A ideia é chegar a 60 patrimônios vivos, todo ano são escolhidos três. Na primeira edição, o Leão Coroado foi um dos escolhidos, garantindo a bolsa mensal de 1,5 mil reais para a entidade e 750 para Afonso Aguiar.
Apesar do valor histórico e do potencial popular - inclusive turístico - até alguns anos atrás, o Maracatu andava esquecido pelo grande público. Restrito a Pernambuco e, mesmo assim, meio apagado. Eis que, pelos idos de 1991, Francisco de Assis França, o Chico Science, com a sua Nação Zumbi misturou maracatu com som pesado e distorcido e uma boa pitada de psicodelia. Nascia o Movimento Mangue Beat. Seu sucesso ajudou a divulgar o Maracatu por todo Brasil e pelo mundo afora. Afonso reconhece a importância do movimento por trazer divisas ao país e, principalmente, por elevar a cultura do Maracatu.
O fenômeno está estampado no perfil dos participantes da oficina: grupos de toda a região sul do país formados, em sua maioria, por brancos. De Curitiba: Estrela do Sul e Voa Voa. O Arrasta Ilha, de Floripa, foi quem organizou a oficina. De Porto Alegre, alguns representantes do Maracatu Truvão, como a Raquel, e os demais tripulantes do C3, com um grupo ainda em formação.
Essa retomada possibilitou ao Leão Coroado uma turnê de 58 dias pela Europa em 2002. “Ficamos sediados na França, em Paris, e passamos pela Holanda, Suiça, Bélgica, por Barcelona. A gente tocava todos os dias”. Embora Afonso veja dificuldade de tocar, por parte dos “gringos”, já existem grupos de Maracatu na Alemanha, no Japão e nos Estados Unidos.
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Eram dois senhores engravatados, terno cinza, cabelos brancos bem penteados. Cada um tomava o caminho do seu carro. Quinze para as onze da manhã. “HEEEEEEY, a que horas você vai chegar? Vai trazer a Luci também, né?”, disse o primeiro, puxando a chave do carro para fora, buscando a resposta do amigo. “Fim de tarde, lá pelas seis e pouco. Venho direto do trabalho, já pilchado e tudo, e a Luci vai também”, respondeu o outro. Entraram no carro e foram embora. Claro. É segunda-feira pela manhã, e o acampamento farroupilha localizado no parque Maurício Sirosky Sobrinho, perto do centro de Porto Alegre, está vazio. Minto: há alguns gaudérios troteando em seus cavalos, tomando o mate nosso de cada dia e lendo o jornal na varanda de seus piquetes. A cena lembra aquelas cidades de filmes de bang-bang americano. Para ajudar no clima de western, ainda há o fator chuva, tornando a areia barrenta e insolúvel.
Faz sentido os senhores de terno e sapatos de executivo combinarem de chegar mais tarde no acampamento. Ainda é de manhã e maioria dos gaúchos dorme tranquila. Vale lembrar que o número de acampados evoluiu com o tempo. Até 1995 eram em torno de 100 grupos. De 96 a 2000, subiu para 170. De 2001 a 2003 foi para 240. Em 2004, passou para 317, mais praça de alimentação e pontos comerciais. Em 2005 foi instituída a obrigatoriedade de apresentação de projetos culturais por parte das entidades acampadas. O número de participantes cresceu até 2008, quando atingiu 400 entidades culturais, mais patrocinadores e entidades organizadoras. Para 2009 o limite foi diminuído, em razão de obras no local que restringiram a área útil do evento. É uma verdadeira população, que se aglomera todo ano no parque.
Talvez não haja nenhum outro lugar do país em que um homem possa sair livremente com um facão na cintura. Pronto para “enfrentar algum inimigo” ou cortar aquela picanha que está sendo assada na churrasqueira improvisada mais próxima. É algo que só pode ser visto nesses 13 dias de acampamento. Uma verdadeira cidade improvisada. Com suas lojas, seus problemas, e suas diversões. É possível ver um porco inteiro sendo assado por vários gaúchos fardados às três horas da tarde, enquanto ingerem uma bebida que parece ter roubado o posto de favorita da erva mate: a velha cerveja. Ela está na mão de todo mundo. Principalmente no fim-de-semana, quando a felicidade se aflora e o parque enche de curiosos que procuram nos gaúchos fardados uma opção para manter o seu tradicionalismo.
Fui atraído para um piquete através de uma música, na realidade um dedilhado de violão, quase um solo, que marcava o tempo, esperando a trova amiga do sujeito de lenço vermelho, que mais parecia uma capa, e bombacha – presa à sua cintura por um tipo de cinto com vários bolsos, denominado guaiaca. Ele estava de pé e largava versos na medida, por inspiração. Peguei a parte final:
“Eu sou gaúcho e me basta
Nada no mundo me estraga
Os versos vão me saindo
Nada disso tá escrito
Não sei se é feio ou bonito
Mas eles vão me surgindo
As cordas seguem tinindo
E nesse tremular
Eu chego a me emocionar
E agradeço de coração
A presença do meu irmão”.
O irmão, sentado ao lado do trovador, se chamava Celso Leonardo, que realmente sabia tocar o violão cancioneiro. Poucas pessoas se juntavam para olhar a declamação. Do lado de fora do piquete, um homem que não estava vestido ao rigor dos pampas, empurrava um carrinho de supermercado pelo barro sujo do acampamento. Ele passava de piquete em piquete mendigando possíveis restos de comida, ou de plástico para que pudesse trocar por dinheiro.
A vila Chocolatão é a “cidade” vizinha aos farrapos. São cerca de 700 pessoas de uma comunidade de catadores de lixo morando em situação irregular em terrenos do Centro Administrativo Federal. As famílias vivem sob condições de vida precárias e insalubres. Além disso, o lugar é considerado um dos mais violentos da cidade. Parece que durante o acampamento farroupilha eles conseguem juntar mais lixo, mais comida, mais tudo. “Pra nós é bom ter acampamento, né. A gente consegue mais coisa, mas participar eu nunca participei. Gosto das músicas. Mas isso não é pra gente não”, disse o papeleiro. Gérson ele se chamava. Falou sem ao menos parar de empurrar o carrinho. Os pés não usavam botas e sim havaianas velhas. Ele gostava da música que o piquete trazia, mas não parou para escutar.
Olhando aquilo tudo: O gaudério bem vestido, lançando versos sobre o seu orgulho de ter nascido no Rio Grande, e o passo apreensivo, quase corrido, de Gérson, perguntei-me: em que posição fica o gaúcho regular e atual nisso tudo? Se há três “cidades” nessa conjunção- o acampamento farroupilha, a porto alegre e a vila Chocolatão-, onde o cidadão dito médio, como eu, encaixa-se? O que é essencial para ser um bom gaúcho?
Quarta de manhã não chovia no acampamento farroupilha e o número de peões era maior do que na segunda. Enquanto me encaminhava para a entrada do parque, não pude deixar de notar um casal, talvez pelos idos dos sessenta anos, ambos fardados. O orgulho ostentado nos seus rostos e no sotaque, quase forçado, a fim de caracterizar o gaúcho forte, aguerrido. Eles me olhavam há algum tempo; pareciam não entender a calça jeans ou a jaqueta verde com listras douradas. Na cara dura, os abordei me identificando e perguntando o que eles achavam que um bom gaúcho deveria ter. Não esperavam tal pergunta, ficaram sem reação de imediato. A mulher me olhou, Luísa se chamava, e disse: “tem que saber dançar obviamente”. “Preparar o mate”, seguiu o senhor, “saber honrar as tradições do estado”. E as roupas? “Não diria que são obrigatórias, mas nessa semana acho que são necessárias”, respondeu Luísa. “Eu concordo, eu uso sempre, gosto e não abro mão, sei que vocês mais jovens não apreciam, mas é a tradição”, conclui o tradicionalista, vestido com seu lenço no pescoço. Só falta o cavalo, pensei.
A questão era interessante. As vestimentas são realmente importantes para o gaúcho que vai passar a semana farroupilha no acampamento. Pelo menos as botas serviriam para andarem na lama que toma conta do parque. Em virtude disso, há lojas que vendem pilchas. Em uma, o vendedor, ironicamente, não se vestia tipicamente, ao contrário, estava informal como qualquer outra pessoa que não “residisse” no acampamento durante a semana. Seu estabelecimento vendia inúmeras peças da indumentária gaudéria: o pala (ou poncho), sobretudo que pode servir de cobertor para dormir com um corte central para enfiar a cabeça; bombacha, que facilita a montaria; e botas. São complementos o chapéu de barbicacho e o lenço no pescoço.
A verdade é que, se fosse comprar todos os devidos acessórios, iria sair muito caro vestir-se como um típico gaúcho. Pensei em comprar as botas, mas o preço me assustou e meu salário de jornalista iria quase todo embora.
Pelo menos, eu sabia fazer um mate. Não tão bem quanto as pessoas que por ali passavam, mas dava para enganar. Se dependesse da dança, também estaria fora. Talvez o acampamento não fosse lugar para pessoas médias, como eu. Ou melhor, há algum sentido em de repente se lembrar de suas raízes apenas por 13 dias?
O cheiro de um churrasco próximo fez me dissipar dos pensamentos vãos. Era uma costela assada, na brasa , com muito sal grosso por cima. Um homem de pala cuidava do fogo. Ainda estava vermelha, o sangue temperava aquele pedaço que um dia fora de alguma vaca que pastava em algum campo. Mencionei tirar fotos, mas ele fez cara de reprovação. Perguntei sobre o seu piquete, o movimento. Nada me respondeu. Apenas levava o copo grande, provavelmente, cheio de cerveja à boca.
Fui embora aos poucos, admirando aquela figura que se misturava com algo que não existe mais – a mítica do gaúcho rude dos pampas – com a modernidade da cevada e do fato de não se deixar ser fotografado. Deu-me vontade de perguntar o que ele fazia no acampamento e o que ele realmente fazia na sua vida. Não poderia bancar o típico gaúcho para sempre.
Crianças parecem adorar o acampamento. Colégios fazem excursões para conhecerem a programação da semana. Todos aqueles animais que alguns piquetes trazem, influenciam bastante o comportamento delas. Ainda mais os cavalos e as grandes reuniões de cavaleiros que acontecem periodicamente. Há algo nesses animais que não tem explicação. São fascinantes no primeiro olhar.
Talvez pelas crianças seja tão interesante manter a tradição da semana farroupilha, além do interesse econômico. Afinal, os mitos são necessários para perpertuar-se uma sociedade. Por isso, é tão fácil acreditar nessa história toda. Orgulhar-se por ser gaúcho, no dia 20 de setembro, mesmo tendo perdido a bendita guerra. É fácil como uma manhã de domingo. Preparar o mate e acordar cedo para tomá-lo em meio ao frio da manhã ou vestir um pala pode ser reconfortante. É fácil e, talvez, necessário.
É isso que faz com que duas pessoas engravatadas combinem horas antes de se encontrar mais tarde no parque. É isso que faz um trovador arriscar versos, crianças ficarem felizes, que despertam a atenção em papeleiros ou causam frustração em outros. O que costuma ser contraditório também costuma mover as ações. Só não é permitido parar no tempo, ou arriscar-se superior em demasiado. O Rio Grande do Sul é possivelmente o Estado com mais passado pela frente, parafraseando a frase de Luís Augusto Fischer. Mesmo assim, é no mínimo fascinante quando pego o ônibus e na rua observo uma pessoa trajada, montada em um cavalo em plena Avenida Ipiranga. São coisas só daqui, coisas que só acontecem na semana Farroupilha.
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